Durante pregação em Tucuruí, Washington Almeida afirmou que o diabo “visitava o ventre” de mães sem proteção espiritual; valor irá para fundo de saúde que atende pessoas autistas. Pastor admitiu que errou

A Justiça do Pará condenou o pastor Washington Almeida, da Assembleia de Deus, a pagar R$ 50 mil por danos morais coletivos por ter associado o autismo à atuação do diabo sobre mães e famílias que, segundo ele, não teriam proteção espiritual. O valor será destinado a um fundo público de saúde que atende pacientes autistas.
Segundo a decisão, o pastor reconheceu que errou e classificou a própria fala como inadequada, mas alegou que não teve intenção de discriminar nem de causar danos a ninguém. A ação foi movida pelo Ministério Público do Pará (MPPA).
O que o pastor disse
A pregação ocorreu em 12 de julho de 2024, durante um evento da Assembleia de Deus em Tucuruí, no sudeste do Pará, com transmissão ao vivo. As declarações foram gravadas e circularam nas redes sociais.
Na ocasião, o pastor afirmou que quase 30% das crianças seriam autistas e atribuiu isso ao diabo, que, segundo ele, estaria “visitando o ventre das desprotegidas” e procurando apenas “os vulneráveis, os desassistidos”.
O que disse o Ministério Público
Na ação, o promotor Luiz Almeida Presotto afirmou que as declarações demonstraram insensibilidade, despreparo, preconceito e ignorância. Para o promotor, o fato de um líder religioso, em um evento de grande porte transmitido ao vivo, atribuir a causa do autismo a uma influência demoníaca é desrespeitoso e perigoso, porque perpetua desinformação e estigma social.
Caso também tem processo criminal
Além da ação civil, a 2ª Turma de Direito Penal do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) aceitou, por unanimidade, uma denúncia criminal do MPPA contra o pastor por discriminação de pessoa com deficiência. Com isso, ele passou a responder ao processo, o que não significa condenação.
Na época da pregação, o pastor publicou um vídeo pedindo desculpas e disse ter sido mal interpretado. A Assembleia de Deus em Tucuruí divulgou nota de repúdio à declaração, e a OAB-PA também criticou a fala.
O que dizem os dados sobre autismo
A afirmação de que quase 30% das crianças são autistas não tem respaldo em dados oficiais:
- Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo, o equivalente a 1,2% da população;
- O maior percentual foi registrado entre meninos de 5 a 9 anos: 3,8% dessa faixa etária.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento, estudada pela ciência e diagnosticada por profissionais de saúde. Não há qualquer base científica que relacione o autismo a fatores espirituais ou à “falta de proteção” das mães.
O que ainda não foi esclarecido
- Se a decisão é de primeira instância e se cabe recurso;
- Qual fundo de saúde receberá o valor;
- A data da sentença;
- Em que fase está o processo criminal por discriminação;
- A posição da defesa do pastor. A coluna que revelou a decisão informou que tenta localizá-la. [posição da defesa]
Antes de compartilhar
Falas que associam o autismo a castigo, culpa dos pais ou causas espirituais reforçam preconceito contra pessoas autistas e suas famílias. Ao compartilhar o vídeo da pregação, deixe claro que se trata de uma declaração condenada pela Justiça e sem base científica.
Orientação e serviço
Pais e responsáveis que percebam sinais de atraso no desenvolvimento, na fala ou na interação social devem procurar o pediatra ou a Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação. O diagnóstico de autismo é feito por profissionais de saúde.
- Disque 100: denúncias de discriminação contra pessoas com deficiência, incluindo pessoas autistas
E em Sete Lagoas e em Minas Gerais?
O caso aconteceu no Pará e não tem ligação direta com Sete Lagoas ou Minas Gerais. Famílias da região que buscam diagnóstico ou acompanhamento para pessoas autistas podem procurar a rede pública de saúde do município, a partir da UBS de referência.
O Veja Minas acompanha o caso e atualiza a matéria assim que houver novas informações.
Informações: coluna Na Mira (Metrópoles); Ministério Público do Pará; Tribunal de Justiça do Pará; IBGE.




